Burnout e ansiedade no trabalho: quando o problema não é apenas o excesso de trabalho
- Vitor Nepomuceno
- 9 de jul.
- 3 min de leitura

Se eu te perguntasse hoje por que você anda tão estressado, talvez a resposta fosse rápida: "Meu trabalho."
E, claro, faz sentido. A rotina é pesada, as cobranças são grandes, as notificações não param e parece que sempre existe mais uma tarefa para resolver.
Mas deixa eu te fazer uma pergunta: por que duas pessoas podem viver exatamente o mesmo ambiente de trabalho e reagir de formas tão diferentes?
Uma consegue desligar o computador e seguir o dia. A outra continua trabalhando por dentro até a hora de dormir.
Talvez a resposta não esteja apenas no trabalho. Talvez esteja na forma como cada um se relaciona com ele.
Nem toda cobrança vem do chefe
Essa é uma das coisas que mais aparecem no consultório. Muitas pessoas chegam dizendo: "Meu trabalho está acabando comigo." E, em muitos casos, ele realmente está.
Mas, conforme a conversa vai acontecendo, percebemos algo curioso: mesmo quando ninguém está cobrando, a pessoa continua se cobrando. Mesmo depois de entregar tudo, a sensação é de que ainda faltou alguma coisa.
Descansar gera culpa. Errar parece inaceitável. E elogio nenhum parece suficiente.
Às vezes, a voz que mais nos desgasta não vem de fora. Ela já mora dentro da gente.
O trabalho só desperta algo que já está aí dentro
O trabalho pode ser muito exigente, mas ele nem sempre cria o sofrimento do zero. Muitas vezes, ele apenas desperta formas de funcionar que aprendemos ao longo da vida.
Talvez você tenha crescido acreditando que precisava fazer tudo certo. Que não podia decepcionar. Que descansar era sinal de preguiça. Ou que seu valor dependia do quanto você produzia.
Na vida adulta, mudam os chefes, mudam as empresas, mudam as metas. Mas, às vezes, essas regras internas continuam exatamente as mesmas.
Então trocar de emprego resolve?
Às vezes, sim.
Existem ambientes tóxicos que realmente adoecem e precisam ser deixados para trás.
Mas nem sempre essa é toda a história.
Conheço pessoas que mudaram de empresa e continuaram ansiosas. Mudaram de profissão e continuaram se sentindo insuficientes. Mudaram de chefe e continuaram incapazes de descansar.
Porque, em alguns momentos, o sofrimento não está apenas onde você trabalha. Está na forma como aprendeu a se relacionar consigo mesmo.
Antes de buscar mais produtividade...
Talvez valha a pena fazer algumas perguntas.
Por que descansar me faz sentir culpa?
O que eu acredito que vai acontecer se eu errar?
Por que tenho tanta dificuldade em dizer "não"?
Desde quando sinto que preciso provar meu valor o tempo todo?
Essas perguntas raramente têm respostas imediatas. Mas costumam abrir caminhos importantes.
E onde entram as caminhadas, a meditação e o journaling?
Eu gosto muito dessas práticas. Inclusive, fazem parte da minha rotina (quase sempre porque não somo perfeitos neh rs).
Mas gosto de enxergá-las de uma forma um pouco diferente. Elas não servem apenas para "controlar a ansiedade". Elas criam espaço.
Uma caminhada pode mostrar o quanto você vive acelerado. Escrever pode ajudar a organizar pensamentos que pareciam um emaranhado. A meditação pode revelar o quanto sua mente está sempre no futuro ou presa ao passado.
O hábito, sozinho, não resolve tudo. Mas ele cria silêncio suficiente para que você consiga se escutar.
Talvez a pergunta mais importante seja outra
Em vez de perguntar apenas:
"Como eu faço para parar de me sentir assim?"
Talvez valha a pena perguntar:
"O que esse estresse está tentando me mostrar sobre a forma como eu tenho vivido?"
Porque, às vezes, o burnout não é apenas um pedido de descanso.
É um pedido de mudança.
Não necessariamente de emprego.
Mas da forma como você vem se tratando todos os dias.



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